"Entre o vento e a navalha escolho o vento.
E com o vento partilho tudo quanto ganho: lingotes de ternura, amigos, coisas simples, liberdade.
E minha a casa de agua onde me oico cantar, mas e de vos a voz e o proprio canto.
Nasci em Ninive mas conheci Vergilio, que a vos vos conheceu tambem; a esfinge viva presioneira do sol, oferecia-a a Da Vinci, foi Gioconda, com o sorriso de um poeta rouxinol.
De Ginsberg, veleiro de heroina, recebi uma carta a abarrotar de versos com o selo de Nabucodonosor. A melancolia do cisne agarrou-se aos poemas como a luz do sol as paredes de Florenca.
Williams, Ferlinghetti, trocando impressoes com Whitman, beberam em maravilhosos copos, os mesmos que Villon havia atirado contra o chao.
Shakespeare viaja quase sempre so, podem encontra-lo nas melhores salas europeias, vestido com o rigor do canto das cigarras, procurando ver dentro dos homens como Camoes e Dante.
Fui eu quem entreguei toda a correspondencia de Neruda, fui eu que por noites e noites ouvi falar Verlaine um pouco irritado com o riso de Rimbaud.
Em vosso nome, desculpem-me, incentivei Aragon a resistencia, bebi de Eluard as mais pequenas e as maiores perolas que a liberdade criou, e saudei Cervantes e Cesario.
Obrigado David, obrigado Amigo.
E tambem eu nao sou nada, nunca serei nada, nao posso querer ser nada, mas sera sempre minha a escolha, ofereco-a, dedico-a a vos que me podeis escolher ou rejeitar. Disse-me Borges que nao poderia nunca tirar as minhas lagrimas e troca-las por outras.
Mesmo que seja so de passagem, essa e uma brisa que te renova
E com o vento partilho tudo quanto ganho: lingotes de ternura, amigos, coisas simples, liberdade."
(Joaquim Pessoa)
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